Os Bolsonaros mostram que não passariam no Enem por não compreenderem o enunciado. Por Donato

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Fazendo jus ao apelido conferido ao sobrenome, Eduardo Bolsonaro fez mais um pronunciamento boçal.

Ao tomar conhecimento de uma questão da prova do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) aplicada neste último domingo, o filho do capitão postou em seu Twitter:

Aviso que não é requisito para ser ministro da Educação saber sobre dicionário dos travestis ou feminismo.”

‘Zero três’, como é chamado pelo pai, referia-se a uma das questões da prova de Linguagens. O enunciado trazia um exemplo de dialeto:

“Nhaí, amapô! Não faça a loka e pague meu acué, deixe de equê se não eu puxo teu picumã!” (em tradução livre, algo como: “E aí, mulher! Não se faça de desentendida, pague meu dinheiro, deixe de truque, senão eu puxo seu cabelo”).

A partir daí os candidatos deveriam então responder o que caracterizava um dialeto.

É bem verdade que a questão 37 trazia um complemento ao enunciado que descrevia-o como um ‘dialeto secreto’ de gays e travestis, definição limitada, entretanto. O pajubá é isso, mas não só isso.

Dialeto falado pelos praticantes de religiões afro-brasileiras como candomblé e umbanda, o pajubá é resultado da mistura de línguas africanas com o português.

Como todo dialeto, restrito a uma comunidade, acabou adotado pela comunidade LGBT, sobretudo durante a ditadura militar, como forma de comunicação para escapar da repressão.

Com a rapidez das redes sociais e a profundidade de um pires, Eduardo Bolsonaro ateve-se a um detalhe em detrimento do todo e saiu vociferando as cretinices típicas do Escola Sem Partido.

Para ele, sexualidade, feminismo, “linguagem travesti”, nada mais são do que ideologias de esquerdopatas e ‘comunistas’ que, segundo seu pai, precisam ser fuzilados ou banidos do país.

Seu pai, Jair, foi no embalo e afirmou que, em seu governo, o ministério da Educação “não tratará de assuntos dessa forma (…) Uma questão de prova que entra na dialética, na linguagem secreta de travesti, não tem nada a ver, não mede conhecimento nenhum.

A não ser obrigar para que no futuro a garotada se interesse mais por esse assunto. Temos que fazer com que o Enem cobre conhecimentos úteis”. Que tal aulas de tiro, capitão?

O Enem deste ano trouxe questões que abordaram racismo, democracia, feminicídio, nomes como Rosa Parks e Martin Luther King.  

Tudo o que um pensamento crítico deve ter em seu baú de informações. Mas Bolsonaros, Kataguiris, Frotas e demais obscurantistas desejam ver pensamento crítico bem longe, e não apenas da escola. Jornalistas que o digam.

A educação vem dando mostras de que irá representar um campo de forte resistência contra as medidas ditatoriais e autoritárias do clã bolsonarista e de seus ‘notáveis’ colaboradores.

Para todas investidas contra a liberdade de pensamento estão ocorrendo reações à altura e com adesão numerosa.

As obscenas invasões de policiais em universidades às vésperas do segundo turno das eleições parecem ter inflamado ânimos já aquecidos no ambiente acadêmico que vem presenciando um crescimento de casos de perseguição, racismo, suásticas rabiscadas nas paredes de salas de aula junto a mensagens de cunho ameaçador.

O filho de Bolsonaro, que já declarou que nem precisaria de muito esforço para fechar o STF, certamente não teria acertado a questão 37 do exame realizado para estudantes do ensino médio, e quis justificar sua ignorância arrotando preconceitos burros.

De fato, nem ministro nem deputado são obrigados a conhecerem o pajubá ou o sânscrito. Mas devem demonstrar respeito com quem quer que seja, simples assim.