O Haiti não é aqui, Heleno, e eu não sou um garoto assustado. Compostura! Por Reinaldo Azevedo

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O general Augusto Heleno, chefe do GSI (Gabinete da Segurança Institucional), resolveu me tirar para dançar no Twitter. Muita gente tenta. Poucos conseguem. Sou um senhor difícil. A pessoa tem de ao menos ter altura para chutar a canela. É o caso do ministro. Leiam abaixo o que ele escreveu e a resposta que lhe dei. Volto em seguida.

VOLTEI
Escrevi um post na sexta em que defendi que Heleno seja convocado por deputados e senadores a se explicar no Congresso sobre suas considerações a respeito da defesa que o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) fez de um novo AI-5.

Em vez de repudiar a tese por princípio, expressando a impossibilidade prática e moral de um golpe, o general resolveu flertar com a ideia. Reconheceu a dificuldade para implementá-la, é verdade, mas não sua desnecessidade. Reproduzo parte do que ele afirmou em entrevista ao Estadão:

Não ouvi ele [Eduardo Bolsonaro] falar isso. Se falou, tem de estudar como vai fazer, como vai conduzir. Acho que, se houver uma coisa no padrão do Chile, é lógico que tem de fazer alguma coisa para conter (…). Eduardo estava sob forte emoção com esse negócio da TV Globo. Essas coisas, hoje, num regime democrático… é complicado. Tem de passar em um monte de lugares. Não é assim. O projeto do Moro, fundamental para conter crime, não passa. Fazem de tudo para não passar. O pessoal não quer, não quer nada que possa organizar o país. Não quer dizer que isso vai organizar o país. Mas isso aí não é assim, vou fazer e faz”.

O general foi feito para guerra. É o normal. Mas não para flertar com golpes. Eu cuido de palavras e ideias. É a minha profissão. A conversa acima é coisa de golpista. E é uma tolice imaginar que vou me comportar como um menino assustado diante de seu uniforme, hoje na gaveta. O Haiti não é aqui.

Acho que ele tem de se explicar, sim! É ministro de um governo civil, eleito pela população, segundo as regras da Constituição de 1988. Ele acha que é preciso “estudar como vai fazer, como vai conduzir” o novo AI-5. Eu já acho que essa sua fala caracteriza crime de responsabilidade segundo a Lei 1.079. O Haiti não é aqui.

A fala estaria adequada a um ministro da Insegurança Institucional. Como, por óbvio, inexiste tal função, sugiro ao general que tome um Lexotan. Ou que leia a Constituição. Ou que faça as duas coisas. Não tenho paciência para conversa de golpistas reais ou potenciais. O Haiti não é aqui.

Agora entro no mérito do que afirmou.

NÃO RECONHEÇO NEM O BOLNARISMO
Segundo o ministro, meu “antibolsonarismo chega às raias da obsessão doentia”. Heleno não deve ler habitualmente o que escrevo ou ouvir o que falo.

Para que eu fosse um “antibolsonarista”, forçoso seria que eu reconhecesse o “bolsonarismo” como uma categoria política, uma corrente de pensamento ou uma vertente ideológica. Não é o caso. Isso a que chamam “bolsonarismo” é só uma mixórdia de autoritarismos vulgares, com laivos de liberalismo mal digerido.

Não vou me justificar, apontando as vezes em que expressei concordância com medidas ou propostas adotadas pelo governo — e já aconteceu, a começar da reforma da Previdência, por exemplo, contra a qual lutava Bolsonaro, o chefe de Heleno, não eu. Não presto satisfações a generais, da ativa ou da reserva, desde que comecei a participar do debate público, ainda na ditadura, sob a vigência do AI-5.

Uma coisa é certa: temos um governo em que as eventuais virtudes são sufocadas pela beligerância, pela truculência, pela intolerância, pela paranoia, quando não pelo passado de seus protagonistas, não é mesmo general?

Heleno acha que é preciso ser um “antibolsonarista” para repudiar a defesa do AI-5, feita por Eduardo, e o flerte com a ideia, feita pelo próprio general. Logo, admite que o bolsonarismo se identifica com essas posturas.

Não gostaria que isto fosse uma novidade para um general da reserva e hoje ministro do GSI, mas, pelo visto, é. Não é por “antibolsonarismo” que rejeito o golpismo: é por apreço ao estado democrático e de direito e às garantias individuais expressas na Constituição.

Se isso faz de mim um antibolsonarista, então sou. Se o avesso disso faz de Heleno um bolsonarista, resta-me lamentar e reiterar o exortação para que o Congresso o convoque a se explicar. Se retirar o que disse, que lhe seja dada uma chance. Se reiterar, que seja denunciado por crime de responsabilidade.

CADÊ A CONVULSÃO?
Apesar da condução desastrada e desastrosa do governo, o país segue em paz no que concerne às pendengas políticas. Os opositores não estão recorrendo à porrada para fazer valer o seu ponto de vista, à diferença do que sugere a conversa mole de Eduardo e do próprio general.

Parece, isto sim, haver uma frustração em certos nichos de extrema-direita, com ou sem uniforme, com a oposição pacífica ao tal “bolsonarismo”. Eu desafio o chefe do GSI e evidenciar uma só ação empreendida por opositores que tenha contribuído para desestabilizar o governo — e olhem que isso é o normal na democracia. Todas as bombas que caíram no colo de Bolsonaro vieram de seus aliados, também atingidos por ele.

Bem, meu caro general, dizer o quê? Não decepciono ninguém. Sempre me opus a práticas autoritárias, viessem da esquerda ou venham da extrema-direita. Já o senhor é uma decepção, sim! Esperava-se que sua maturidade conferisse temperança ao governo, mas o senhor tem feito o contrário.

De resto, e acho triste ter de explicar, registre-se: ainda que o Brasil estivesse sendo sacudido por manifestações violentas, a Constituição e as leis que temos dispõem de dispositivos para fazer valer a ordem democrática, sem a necessidade do golpe pregado por Eduardo, para o qual o general deu uma piscadela.

Não é a primeira vez que, ao invés de jogar água na fervura, ele resolve pôr lenha na fogueira. Nem fica bem para seus cabelos brancos. Seja mais prudente, meu senhor! O governo precisa da sua experiência, general, não da sua incontinência verbal.

O Haiti não é aqui, eu não sou um garotinho assustado, e a imprensa não é inimiga deste governo. Os profissionais decentes exercem, sim, seu trabalho de forma criteriosa, crítica e independente. Como fizeram com os antecessores de Bolsonaro — menos da vigência do AI-5, claro…

Heleno talvez não goste do que vou dizer agora: governos passam; a imprensa fica.

Tome um chá de camomila, general!