21 Fevereiro 2012
Há alguns anos me foi dada a oportunidade de conhecer o museu olímpico que, às suas expensas, o doutor Roberto Gesta mantém aqui em Manaus.
Foi deslumbrante, principalmente para alguém como eu que jamais pensaria na possibilidade de ver de perto verdadeiras preciosidades do esporte, ali tratadas com reverência, respeito e um cuidado profissional.
O guia era o proprietário e, com paciência que só se igualava à sua extrema gentileza, explicava em detalhes a origem de cada peça, as dificuldades para adquiri-la a as exigências técnicas indispensáveis à sua conservação.
Impressionou-me a dedicação daquele homem. Impressionou-me mas não me causou estranheza porque, desde os tempos da velha Jaqueira da Praça dos Remédios, sempre soube que Gesta tinha verdadeiro fascínio pelo esporte. Assim foi que, já naquela época, presidiu a FAUD, a hoje extinta Federação Amazonense Universitária de Desportos.
Sem necessidade de se envolver com os, às vezes, chatíssimos meandros da ciência jurídica, Bob Gesta, como carinhosamente o chama seu xará de sobrenome Caminha, deliberou dedicar sua vida definitivamente ao esporte olímpico.
Essa abnegação o levou à presidência da Confederação Brasileira de Atletismo e à da sua congênere sul-americana. Da entidade nacional Gesta se afastará ao final deste ano, depois de vinte e cinco anos de trabalho. E que trabalho!
O atletismo no Brasil nunca foi levado a sério. Basta ver o exemplo da Vila Olímpica de Manaus. Construída dentro dos mais rigorosos padrões técnicos, foi literalmente abandonada por governos posteriores, não servindo hoje nem como ponto de referência para orientação de taxistas.
Num quadro dessa ordem, Roberto Gesta conseguiu, no plano nacional, elevar o nível da prática do atletismo e nem foi por outra coisa que, a duras penas, logramos amealhar algumas medalhas em Olimpíadas, competição em que nossa posição, no quadro geral, é positivamente medíocre.
Há coisa de quinze anos, tive o prazer de sua companhia em Havana, aonde fomos integrando comitiva do governador Amazonino Mendes. Era tocante ver a mescla de diplomacia e firmeza com que Gesta negociava com os dirigentes cubanos a cessão, para o Amazonas, de atletas e técnicos daquele país, tudo com o objetivo de elevar os patamares da prática do atletismo nesta Cidade Risonha.
O empenho era tanto que, em determinado momento, o cubano, ouvindo falar de determinado técnico, olhou espantado e exclamou: "Pero, Gesta, esto es el entrenador de la selección nacional".
No momento em que deixa a presidência, esse ilustre amazonense está a merecer as homenagens de seus conterrâneos e de seu governo. Esta crônica, conquanto nada represente além de modestas e mal traçadas linhas, busca fixar a minha homenagem pessoal a Roberto Gesta, a se traduzir pelo reconhecimento de uma escorreita administração.
Quase isolada, sem incentivos maiores, a Confederação Brasileira de Atletismo deu memoráveis saltos quantitativos e qualitativos, o que, se permite regozijo nacional, para nós, da terra de Ajuricaba, há de ser especial motivo de orgulho.
Não se trata apenas de "mais um amazonense que se destaca lá fora". Cuida-se de um homem, cuja retidão de caráter e a firmeza na busca de objetivos lhe permitiram granjear respeito internacional.
"Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo" e é com esse sentimento que eu digo: muito obrigado, doutor Roberto Gesta de Melo.










