Fábio Junior, meu neto, andou negligenciando e recebeu uma nota quatro em matemática. Os pais ficaram preocupados. Minha filha me contou o incidente com uma expressão que equivale a “já viste que nota teu neto tirou?” Não pude deixar de rir porque, como lhe falei então, lembrei que na mesma idade da criança, onze anos, a saudosa professora Iza Brito me brindou com um respeitável três, na mesma matéria, ali no Instituto de Educação do Amazonas. E filosofei: “Se ele for parecido com o avô, está, no assunto, dentro dos mais absolutos padrões de normalidade.

Por uma dessas compensações não tão raras, a irmã dele, Luciana, que ainda caminha para os oito anos, é um projeto bem sólido de “cdf” e suas notas equivalem sempre àquilo que no meu tempo se chamava de dez estrelado. Em ambos os casos, nada a estranhar. Há ramos do conhecimento com os quais simplesmente não temos nenhuma empatia e isso torna quase impossível um aprendizado eficaz. Ainda mais quando o ensino é descontextualizado da realidade, não permitindo ao estudante compreender a utilidade do que se lhe busca transmitir.

Vem-me à memória um exemplo. No ensino médio me fizeram usar uma coisa chamada tábua de logaritmos. Com um esforço monumental, buscava um mínimo de compreensão e era obrigado a usar a tal tábua na resolução de problemas. Fazia-o de forma mecânica, quase decorativa, porque até hoje confesso minha ignorância ampla e irrestrita: não tenho a mínima ideia da utilidade nem dos logaritmos, nem, muito menos, da tábua em que eles estão expostos.

E o que dizer do valor de pi? Lembro-me da afirmativa peremptória de que esse valor ia ao infinito e de que, apenas por questões de ordem prática, costumava-se traduzi-lo em 3,1416. Pois muito que bem. Pergunto-me ainda: e daí? O que é que eu vou fazer com o valor de pi, seja ele infinito, ou tenha a brevidade de uma vida humana? Minha sandice não vai ao ponto de desconhecer que os especialistas hão de ter nos dados dessa espécie elementos valiosos para os trabalhos científicos que desenvolvem. Digo apenas, fixando o meu ponto, que isso equivale a eu afirmar para um leigo que “no crime preterdoloso há dolo no antecedente e culpa no consequente”. Todas as palavras são genuinamente vernáculas, mas é óbvio que, afora os do ramo, ninguém entendeu bulhufas.

Não há, portanto, nenhuma catástrofe no quatro do Fábio Junior, da mesma forma que não há motivo para soar trombetas com os êxitos da Luciana. São ambos crianças e estão apenas no início de um longo aprendizado que, corretamente orientado, há de lhes permitir conhecer, interpretar e transformar o mundo, objetivo primeiro, a meu sentir, desta nossa existência. Sem isso não estaríamos tão bem situados na escala evolutiva.

Mas a família não inicia o mês das festas apenas com chateação. O pai do Fábio Junior, meu genro Fábio Agostinho da Silva, recebeu aprovação com distinção ao defender sua dissertação de mestrado na Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALE. O trabalho é pouco ortodoxo e tem um nome mais comprido que um dia de fome: “O princípio do devido processo legal nos países membros do Mercosul, sob a perspectiva da Convenção Americana de Direitos Humanos”. Está aí a razão de consolo: se o filho sair ao pai, não há nenhum motivo para preocupação. A nota quatro terá sido mero acidente de percurso.

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