Falávamos da Manaus de meados do século passado, bem antes de existir a Zona Franca. Foi lembrado o Cine Avenida, onde dona Iaiá, com impecável maquiagem, era proprietária e recepcionista, postando-se à entrada desde as 13 horas até os espetáculos noturnos, especialmente os de sexta-feira, denominados “sessão das moças”, talvez em razão dos romances e dramalhões que eram exibidos. Libertad Lamarque e Maria Felix, Agustin Lara e Ricardo Montalbán, eram astros que estavam sempre na tela, interpretando histórias de infidelidade e sangue, permeadas por belíssimas canções mexicanas como Perfídia e Maria Bonita.

Bem próximo, o Cine Odeon era o concorrente mais acirrado. Levava a vantagem do ar condicionado, novidade que encantava os espectadores, principalmente numa cidade em que a energia elétrica regular era privilégio de poucos. Lembro-me de ali ter visto de “Ivanhoé” a “Cangaceiros”, sempre tentando driblar a implacável fiscalização do Juizado de Menores, já que a maioria dos filmes era censurada para adolescentes abaixo de dezoito anos.

Constatamos que hoje, na Manaus dos shoppings, é quase impossível encontrar amazonenses nativos. Fiz questão de mencionar a arguta observação de Alfredo Cabral, para quem só encontramos os conterrâneos mais antigos em velório ou em missa de sétimo dia. Efeitos do, se assim posso dizer, progresso, que, em menos de meio século, fez subir para dois milhões de habitantes uma população que, àquela época, mal passava de cem mil almas.

Todos se conheciam e os que podiam usavam os “carros de praça” da Garage Sportiva, acessíveis pelo telefone 1183, assim mesmo com apenas quatro dígitos. Os demais, como eu, tinham que se conformar em usar os ônibus, que tinham até nomes como “Radiant” e “Zepellin”, em rotas como João Coelho/Joaquim Nabuco, ou Alto Nazaré e Cachoeirinha.

No “Parque Amazonense” havia futebol aos domingos e era uma delícia ver o glorioso Fast Clube aplicar peias memoráveis nos seus eternos rivais conhecidos como Nacional, Rio Negro e Olímpico. Nada de milionárias e visionárias “arenas”. No velho Parque o máximo que se gastava eram uns poucos trocados para comprar o sanduíche “disco voador”, que as más línguas apelidavam de “espera-me no céu”.

Tudo isso veio à cena durante a recepção de aniversário dessa grande figura que é Rinaldo Buzaglo. O doutor Jacob Cohen, oftalmologista dos mais respeitados, recebeu os convidados na área comum do edifício onde reside, ali na velha Vila Municipal, de mangueiras e taperebazeiros. Anfitrião perfeito, fez questão de reunir em espaço aberto só para que eu pudesse fumar sem sofrer o constrangimento dos “tabaxiitas”, hoje empenhados na mais ferrenha cruzada contra a nicotina e a fumaça.

As horas passaram rapidamente ao som do violão do aniversariante, com o bandolim do Cláudio Nunes e o pandeiro do Casqueta. E com a voz impecável da esposa do doutor Homero de Miranda Leão Neto, fomos ouvindo as mais belas canções bem típicas da seresta, tudo compatível com o ar de saudosismo que acabou pairando e imperando. Valeu. Cumprimentamos um grande amigo e, de quebra, homenageamos esta cidade que, apesar de tudo, continua morando em nossos corações.

Comentários 

 
0 #1 tempo bomwarrington redman 12-09-2011 13:17
Dr félix valois,sua narrativa me fez voltar ao passado,e recordar a manaus dos meus tempo de criança.menino que fui, na minha querida praça 14 de janeiro.e que vejo mudar todos os dias,hoje já não se vê mais a tribo dos andiráis,ném o boi caprichoso(boi que deu o nome ao da ilha túpinabaranda)p arintins,a voz do seu alvaro que era um sistema de alto falantes.se eu continuar vou me debulhar em lágrimaspois a saudade e tanta e só para encerrar vou me lembrar das filas na vila municípal ao lado da igreja para pegar leite de posto.aliança para o progresso.hoje e um jeito diferente de ser.
Manaus,pra morar dentro da gente.
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