Fake news: pacto pós-protesto faz Congresso e STF tchutchucas de Bolsonaro

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REINALDO AZEVEDO – Com a devida vênia, não é?, a ser cabível o adjunto adverbial que frequentou o noticiário, então Supremo e Congresso é que viraram as “tchutchucas” de Jair Bolsonaro?

Se é verdade que, “depois de protestos, Poderes aceitam assinar um pacto”, então tenho de imaginar Dias Toffoli, Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre — respectivamente, presidentes do Supremo, da Câmara e do Senado — a dançar, indo até o chão, no Bonde do Tigrão: “tapinha/ só um tapinha não dói/ um tapinha/ só um tapinha não dói”. O engano e o autoengano são livres.

Essa conversa de pacto entre Poderes é antiga e foi lançada originalmente por Dias Toffoli, presidente do Supremo. Não existe modo de operacionalizá-lo a não ser por meio de uma carta de intenções, que não pode ser mais do que isso. Ou Maia e Alcolumbre poderão garantir os votos de deputados e senadores, enquanto Toffoli levaria no colete os dos 11 ministros? Ainda que os comandantes dos Poderes sejam decisivos na definição da agenda, não têm poder nenhum sobre os votos de seus pares.

“Ah, vamos aprovar a reforma da Previdência?” “Vamos!” Como o Supremo pode colaborar nesse caso? Fazendo vista grossa para eventuais ilegalidades? Acho que não. O mesmo se diga em relação à reforma tributária, novo pacto federativo, o pacote dito anticrimes de Sérgio Moro… Não me parece que Toffoli possa garantir o conteúdo dos votos de seus colegas.

A propósito: Toffoli foi um dos alvos dos protestos lançados, apoiados e exaltados por Bolsonaro. Não obstante, é o ministro que mais conversa com o presidente. Pode-se dizer, como Louis e Rick no filme “Casablanca”, que se estabeleceu entre eles o “início de uma bela amizade”. Nem por isso o ministro foi poupado da artilharia apoiada pelo presidente.

O mesmo se diga sobre Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara. O que foi mesmo que ele fez até agora contra a reforma da Previdência ou as demais pautas que comporiam o tal pacto, que, seguindo versão endossada pelo presidente da República e pelo próprio Paulo Guedes, teria se tornado imperioso depois dos “protestos a favor”? Resposta: nada! E, no entanto, foi o alvo principal dos brucutus.

Então a versão que deve triunfar é esta: assustados com os movimentos de rua — como se avassaladores tivessem sido —, os chefes dos outros dois Poderes enfiam o rabo entre as pernas e prometem fazer tudo o que nhonhô mandar. Bem, para que essa versão seja crível, forçoso é que se diga o que estavam fazendo antes contra aquela que deveria ser a agenda principal do governo.

Essa conversa não faz o menor sentido. E é preciso explicar o que aconteceu.

Os bolsonaristas que foram às ruas atacaram, sim, de maneira inequívoca os outros dois Poderes da República. Numa entrevista posterior aos eventos, Bolsonaro endossou as críticas e voltou a demonizar as tais “velhas práticas”. Aumentava a distância entre o presidente e as instituições. E eis que Toffoli relembra a sua proposta de entendimento entre os Poderes, e então Bolsonaro chama a turma para um café da manhã. Feita a convocação, não há saída; não há recusa possível. Dizer o quê? “Não vou”? Não existe essa alternativa. E eles foram.

E imediatamente se estabeleceu essa, lá vai a palavra que já virou clichê, “narrativa” segundo a qual bastou um barulho na rua para que, então, a “velha política” caísse aos pés de Bolsonaro.

tenção, caros leitores! Que o governo e a rede bolsonarista tenham se abraçado a essa fantasia, vá lá. Ocorre que também a imprensa profissional resolveu entrar nessa. Por alguma razão que só poderia ser milagrosa, porque seria um efeito sem causa, os “protestos a favor de Bolsonaro” e contra os demais Poderes teriam gerado, assim, um efeito manada. Infelizmente para o presidente e felizmente para a democracia, isso é falso como nota de R$ 3. É a chamada “Vitória de Itararé”, que vem a ser, então, a vitória da batalha que não houve. Só falta escolher o barão…