Então falemos de Horácio e seu Latim, senhor Moro. Mas é para aprender!

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Por Reinaldo Azevedo – Doutor Sergio Moro já demonstrou que pode tropeçar na “Inculta & Bela” com o desassombro de quem sabe demais para se dedicar à leitura. Troca cônjuge por “conge” (Conje? Côngi? Cônji?) e rusgas por “rugas”, por exemplo. Também não se conforma com o fato de o verbo haver, no sentido de existir, ser impessoal, inconformismo especialmente saliente quando ele o conjuga no passado. Costuma largar os seus “haviam” pelo caminho como se não houvesse amanhã. Da mesma sorte não distingue o “vim”, primeira pessoa do pretérito perfeito, de seu infinitivo “vir”.

Assim, volta e meia, algo em seu discurso “pode VIM a ser”. Tire a gramática e a Constituição do caminho que Moro quer passar com a sua barbárie. No depoimento à Comissão de Constituição e Justiça do Senado, lascou um “menas”, corrigindo-se, nesse caso, a tempo. Mas foi a sua primeira inclinação

Eis que, para responder ao irrespondível, resolveu resgatar uma frase do formidável Horácio, poeta latino (65 a.C — 8 a.C), que escreveu em sua “Ars Poetica” (Arte Poética), o seguinte: “Parturient montes, nascetur ridiculus mus”: “Os montes parirão, e nascerá um ridículo rato”. É o famoso “A montanha pariu um rato”. A construção horaciana está no futuro. É importante lembrar em que circunstância Horácio o escreveu — e Moro deve ignorá-lo porque fica só na esfera da citação que vira clichê.

Esse talvez seja o conselho mais importante que Horácio dá aos poetas, já que sua obra tem um cunho didático. Ele os adverte contra a tentação de começar uma narrativa pelo nascimento das musas — vale dizer: na ânsia, então, de contar tudo, de parir a montanha, o que se tem é uma ridicularia. O autor pode se perder em questões históricas ou descrições inúteis, que o afastam do tema. Extrapolando da poesia para a vida: cumpre não ser derrotado pelo excesso de pretensão. Entendeu, Moro?

Horácio era guiado, diga-se, pela ideia da medida. Se, depois de estudar um pouco de língua portuguesa, Moro quiser mesmo se dedicar ao latim, pode encontrar nas “Sátiras”, na primeira delas, do Livro I, o seguinte trecho: “(…) est modus in rebus , sunti certi denique fines,/ quos ultra citraque nequit consistere rectum”. Poderia ser a divisa do direito. Preste atenção, Sergio Moro: “Há uma medida nas coisas; há, enfim, limites precisos além dos quais e aquém dos quais não é possível existir o que é justo”.

Se o leitor amigo quiser fazer uma pesquisa sobre o sentido da palavra “rectus”, verá que poderia ser traduzida também por “direito”.

Moro tem um entendimento precário do português.

Moro nada entende de latim.

Da sua montanha de ações penais, nasceram ratos que corroeram empresas e direitos.

Moro nada entende de Horácio.

Moro não percebeu que há uma medida nas coisas, que há limites, além dos quais inexiste direito.

E só resta a barbárie dos ratos.

Se o ministro quiser, empresto-lhe o livro. Mas tem de devolver.