Deus Moro decreta sobre AI-5: “caso encerrado”. E quer caso Marielle na PF

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POR REINALDO AZEVEDO – Sergio Moro, ministro da Justiça, com seu natural complexo de Deus, resolveu passar a mão da cabeça de Eduardo Bolsonaro. Indagado sobre a frase em defesa do AI-5, o ex-juiz respondeu: “Isso foi ontem, o deputado já pediu desculpas, assunto encerrado”. E não disse uma miserável palavra em defesa da democracia. Faz sentido. Ele não acredita no modelo, como sua atuação deixa claro.

Notaram? Ele, que mandou Augusto Aras determinar que o MPF abra uma investigação ilegal contra o porteiro, julga ter o poder de dizer o que é e o que não é assunto encerrado. Quando os de sua turma pedem desculpas ou se arrependem, o crime desaparece.

Já fez algo semelhante antes. Quando lhe lembraram que um colega seu de ministério, Onix Lorenzoni, era acusado de ter recebido contribuição pelo caixa dois, respondeu: “Ele já se arrependeu”. Entendi. Nota: depois da primeira delação contra Lorenzoni (a do arrependimento), apareceu uma segunda. Sem problema. Estão todos em casa.

O doutor também resolveu falar sobre o caso Marielle: “Considerando a demora de identificação dos mandantes e essas reiteradas tentativas de obstrução da Justiça, talvez seja o caso realmente de federalização”.

Huuummm… Moro quer o caso investigado pela Polícia Federal. E, claro!, ele deve jurar intimamente que não receberia informações indevidas sobre a apuração, certo? Não nos esqueçamos: sem querer, Bolsonaro deixou claro certa feita que seu ministro havia lhe passado informações sobre inquérito sigiloso envolvendo laranjas do PSL.

Que se note: o ministro considera que os dois depoimentos dados pelo porteiro do condomínio “Vivendas da BArra” constituem obstrução da Justiça.

Prendam o porteiro!

Informa a Folha:
“Com a presença do procurador Deltan Dallagnol e outras autoridades, Moro participou da inauguração de uma delegacia modelo, dedicada a investigação e análise financeira para combate à corrupção, no prédio da Superintendência da PF (Polícia Federal), em Curitiba. No local, desde abril de 2018, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) cumpre pena por condenação na Lava Jato“.

É evidente que a presença da dupla também é uma provocação.

Mais do que isso: é uma ironia e o emblema de um tempo.

Moro foi ao local em que está encarcerado a sua presa mais famosa em companhia do rapaz do PowerPoint. Confirmada em segunda instância a condenação sem provas, Lula se tornou inelegível e não pôde concorrer com Bolsonaro, agora chefe do ex-juiz e pai do rapaz que defende um novo AI-5, coisa que o ministro, este Colosso de Rhodes da moralidade nacional, decretou ser “assunto encerrado”.

A depender da conveniência, Moro desculpa, perdoa, condena sem provas ou manda, mesmo não tendo competência para tanto, o MPF investigar testemunha de inquérito que ainda não foi concluído.

Um verdadeiro democrata!

Um gigante do Estado democrático e de direito!

Um herói das garantias individuais!