Deputado dá a boa resposta a Moro, que atrapalha reforma

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Reinaldo Azevedo – A resposta dura e necessária que Rodrigo Maia (DEM-RJ) deu ao ministro Sérgio Moro, da Justiça, é um sinal da desordem que reina na coordenação política do governo. Vamos ver. Maia é presidente de uma das Casas de um dos Poderes da República: a Câmara dos Deputados. É também o terceiro na hierarquia sucessória — ou o segundo, caso se queira excluir o titular. Dialoga com ministros e com quem quer que seja, mas não pode ser submetido a pressões ou a uma tentativa de emparedamento. É ele, mais do que o presidente Jair Bolsonaro, o fiador da reforma da Previdência. Se há um consenso hoje nos mercados e nos setores que acompanham a questão é este: a reforma será a que ele conseguir costurar. O governo, bem…, este, na prática, joga contra. E por isso o deputado se irritou tanto nesta quinta.

Moro foi à Câmara e resolveu fazer pressão pública contra Maia. Participou de um evento da chamada “Bancada da Bala” e afirmou que iria falar com o deputado para acelerar a tramitação do seu “pacote anticrime”, que ele gostaria de ver tramitando junto com a reforma da Previdência, o que é uma sandice — não para ele, que está com os olhos postos bem mais longe. Nem os gramados de Brasília duvidam de que seu horizonte seja 2022. E isso inclui o círculo mais próximo de Jair Bolsonaro, quem sabe o próprio. Certamente o ex-juiz considera que, ainda que seu chefe naufrague, a luta contra a corrupção preservará a sua posição de herói sem mácula.

Maia criou uma comissão para estudar o pacote de Moro, que tem 90 dias para dar uma resposta e para conciliar o que lá vai com propostas já elaboradas por grupo comandado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo. Tomou o cuidado, em tempos de depredação organizada nas redes, de excluir dessa comissão as propostas que tratam de criminalização de caixa dois e da competência da Justiça Eleitoral para julgar crimes comuns conexos aos eleitorais. Mas o ministro tem sede de protagonismo.  A avaliação unânime de quem tem mais de dois neurônios é a de que a reforma da Previdência já é pauleira suficiente. Juntar as coisas é criar dificuldades adicionais. Moro tem mais de dois neurônios. Mas ele está pensando em Moro.

Ao se ver publicamente pressionado por um ministro na Casa que ele próprio preside, Maia reagiu com dureza:

“Moro está desrespeitando um acordo meu com o governo. Nosso acordo é priorizar a Previdência. Espero que ele entenda que ele é ministro de Estado. Ele está abaixo do presidente. Eu já disse a ele que esse projeto será posterior à Previdência, só isso”.

Disse mais:

“Não estou irritado, mas acho que ele conhece pouco a política. Eu sou presidente da Câmara, ele é ministro, funcionário do presidente Bolsonaro. Então, o presidente Bolsonaro é quem tem que dialogar comigo. Ele está confundido as bolas. Ele não é presidente da República. Não foi eleito para isso. Está ficando uma situação ruim para ele”.

Na mosca!

A hierarquia é essa. O deputado lembrou ainda outra questão relevante: “O projeto é importante. Aliás, ele [Moro] está copiando projeto do ministro Alexandre de Morais, copia e cola. Então tem poucas novidades no projeto dele. Vamos apensar um ou outro projeto, mas o prioritário é o do ministro Alexandre de Moraes. No momento adequado, depois de votar a Previdência, vamos votar o projeto dele. O que precisamos é que o ministério da Justiça diga, com a estrutura que tem, como enfrentar o combate ao crime organizado”.

E Maia fala a verdade. A única coisa que não está na proposta comandada por Moraes é a licença para matar, que será dada caso Moro consiga mudar, como pretende, os Artigos 23 e 25 do Código Penal.